Globetrotter by Harold Emert

Críticos brasileiros e internacionais vêm apostando com confiança que Wagner Moura e The Secret Agent serão fortes candidatos ao Oscar de 2026. Depois de assistir a Blue Moon, porém — estrelado por Ethan Hawke no papel do letrista da Broadway Lorenz Hart — peço respeitosamente licença para discordar.

Como observou com precisão um crítico americano, este retrato íntimo do homem por trás de That’s Why the Lady Is a Tramp, My Funny Valentine e Blue Moon daria uma excelente peça teatral. Ainda assim, é também um filme excepcional — e profundamente comovente — que merece plenamente o reconhecimento da crítica.

Dirigido por Richard Linklater, com um roteiro poético e inteligente de Robert Kaplow, Blue Moon funciona como um lembrete silencioso, porém firme, de que o cinema — mesmo numa era em que muitos espectadores mal leem além de postagens no Facebook — continua a ocupar um lugar ao lado da poesia, da literatura e da música como forma séria de arte.

Este não é um filme para quem busca espetáculo à la Star Wars, ação incessante ou mensagens políticas explícitas. Sua força está na sutileza. Muitas referências podem passar despercebidas ao público mais jovem: rápidas aparições ou alusões a um jovem Stephen Sondheim; ao protegido de Oscar Hammerstein; ao grande ensaísta da New Yorker, E. B. White, sentado silenciosamente no bar do Sardi’s; além de discretos acenos ao clássico Casablanca, entre outros.

O filme também funciona como uma elegia nostálgica a uma Nova York que já não existe — uma Manhattan em que os musicais da Broadway contavam com orquestras completas no fosso, e não pequenos conjuntos eletrônicos; em que críticos de jornal podiam consagrar ou arruinar um espetáculo com resenhas escritas por volta das três da manhã; e em que os Estados Unidos, mesmo em plena Segunda Guerra Mundial, pareciam muito mais inocentes do que na era do czar Donald Trump.

No centro de Blue Moon está a narrativa de uma longa noite na vida de um gênio da Broadway em declínio, dividido entre fugir — e encarar — o sucesso do homem que o substituiu como parceiro de um dos maiores compositores americanos, Richard Rodgers. É o retrato de um artista diante de um mundo em rápida transformação, artística e culturalmente, no qual poesia, romantismo e elegância lírica passam a ser vistos como “obsoletos”.

Em termos brasileiros, imagine Vinicius de Moraes subitamente lançado na cultura hiper-digital e agressivamente antirromântica de hoje. Será que ele, como Lorenz Hart, acabaria relegado à margem, apesar do valor duradouro de sua obra?

Além da atuação quase monológica de Ethan Hawke — digna de Oscar, ao menos na opinião deste crítico — o elenco de apoio é excelente. Andrew Scott está ótimo como Richard Rodgers; Bobby Cannavale traz calor humano e empatia ao papel do bartender solidário; Giles Surridge encarna com discrição E. B. White; e Margaret Qualley, em especial, se afirma como uma atriz a ser acompanhada. Como a musa de Hart — romântica, conflituosa e profundamente humana — ela entrega uma atuação de notável autenticidade emocional.

Ambientado quase inteiramente em 1943, dentro do lendário restaurante-bar Sardi’s, da Broadway, Blue Moon deixa no ar uma última pergunta: se esses personagens fossem transportados 83 anos para o futuro, o que diriam? Ou ficariam, como tantos hoje, sentados em silêncio, rolando mensagens em seus celulares?

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