Um Leigo na Rio Fashion Week

O que eu gosto — e às vezes não gosto — na minha segunda vocação na vida, o jornalismo, é que, ao contrário da minha primeira vocação, a música, raramente existe um roteiro formal ou uma “partitura” dizendo o que fazer ou o que você vai ver.
Então, quando aceitei um convite para o último dia do tão aguardado retorno da Rio Fashion Week — de volta após dez anos de ausência na cidade do Rio de Janeiro — parti como um completo leigo. Afinal, esta é uma cidade dominada (pelo menos na minha observação) por pessoas ligadas à moda.
Meu “carruagem”? O Metrô do Rio de Janeiro e o VLT Carioca, que me levaram até a Praça Mauá, o ponto central do espetáculo. Cheguei sem saber exatamente o que estava prestes a presenciar — mas determinado a descobrir.
No início, tive a entrada negada para um desfile — como é chamado aqui — da estilista brasileira Isabela Capeto, que mantém uma loja de roupas femininas no arborizado bairro da Gávea.
Mas a experiência nesta chamada Cidade Maravilhosa me ensinou uma coisa: espere com paciência, não reclame, não grite — e às vezes a porta se abre.
E abriu.
O seguraça, antes imponente, de repente fez um gesto urgente para que avançássemos: não caminhe — corra.
E assim, como um par de determinados “cidadãos idosos”, minha cara-metade e eu corremos o mais rápido que nossas pernas envelhecidas permitiam. Subimos as escadas e nos esprememos entre uma multidão que se preparava para assistir ao desfile em um ambiente gelado, que parecia ter a temperatura do Polo Norte.
Minha posição privilegiada não durou muito. Um vizinho levemente irritado me tirou do lugar. Mas, novamente, a experiência entrou em cena: mire na primeira fila. Na minha idade, pensei, quem ousaria me expulsar?
Ninguém ousou.
Dessa posição conquistada com esforço, observei as modelos de Capeto entrarem na passarela com uma mistura marcante de cores tropicais — marrons terrosos, pretos e brancos — combinadas com designs que evocavam algo primal, quase tribal na inspiração. Era ousado, texturizado e inconfundivelmente brasileiro.
Não havia nenhuma Gisele Bündchen entre as modelos, mas elas — magras como dita a moda — desfilavam com confiança ao som de batidas intensas, quase como rap, que ecoavam pelo ambiente.
Ao final, o público se levantou em uma merecida ovação de pé.
O Panorama Maior
Para além da aventura de um leigo, o retorno da Rio Fashion Week não é pouca coisa.
A Rio Fashion Week marcou seu retorno em abril de 2026 após mais de uma década desde o último “Fashion Rio”, em 2014. Realizado de 14 a 18 de abril no Píer Mauá e pela região portuária, o evento reafirmou o Rio como um importante polo criativo.
Cerca de 20 marcas participaram, incluindo Osklen, Lenny Niemeyer (celebrando 35 anos) e Salinas.
O relençamento é liderado pela IMM, grupo responsável pela São Paulo Fashion Week, criando um calendário nacional unificado: Rio no primeiro semestre, São Paulo no segundo.
O evento atraiu mais de 30 mil pessoas e, segundo autoridades municipais, gerou mais de R$ 100 milhões em atividade econômica — impulsionando empregos e fortalecendo a economia criativa do Rio.
A programação equilibrou nomes consagrados e novos talentos, com estilistas como Patricia Viera, Handred e Adidas entre os participantes.
Melhor ainda para iniciantes como eu: o evento já está confirmado para os próximos três anos.
A Promessa de um Leigo
Quanto a este observador, prometo voltar — espero que um pouco menos perdido — para a edição de 2027.
Embora uma sugestão humilde: talvez da próxima vez os convidados não precisem enfrentar filas, negociar e correr apenas para entrar.
Ainda assim, numa cidade como o Rio, talvez isso também faça parte do espetáculo.