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Uma Carta de Amor a Meryl Streep por Sua Interpretação de Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada II

Cartaz do filme O Diabo Veste Prada II

Cara Sra. Streep,
Esta é apenas uma missiva para dizer o quanto este cinéfilo adorou sua atuação em O Diabo Veste Prada II.

Apesar das farpas do pior presidente da história dos Estados Unidos — que a rotulou de forma desdenhosa como "ultrapassada" e "atriz medíocre" — seu trabalho aqui é um lembrete retumbante de que, aos 76 anos, você continua no auge de sua forma. O filme, lançado na semana passada em Nova York e agora em cartaz aqui no Rio de Janeiro, prova que aposentadoria é a última coisa no seu horizonte.

Uso a palavra "artista" deliberadamente. Em sua interpretação da imperiosa e fascinante Miranda Priestly — inspirada na editora da Vogue, Anna Wintour — você transcende a mera atuação.

Você evoca um tipo que conheci bem ao longo dos anos: o editor e jornalista de topo formidável, duro, geralmente pouco polido. Rigoroso, disciplinado, muitas vezes brusco a ponto de intimidar, mas que — quando a armadura se rompe — revela uma humanidade que por vezes supera sua busca incansável pela perfeição.

Justamente quando eu começava a lamentar o declínio do cinema americano em comparação com seus pares internacionais, este filme restaurou parte da minha fé. Com roteiro de Aline McKenna, baseado no best-seller de 2003 de Lauren Weisberger, e dirigido com segurança por David Frankel (filho do grande editor do New York Times, Max Frankel), a produção é refrescantemente de altíssimo nível. Filmado com um orçamento relativamente modesto em Nova York (Manhattan e Astoria), em vez de Hollywood, aposta na narrativa em detrimento do espetáculo tecnológico.

O elenco é igualmente cativante: Anne Hathaway retorna como a jornalista Andy Sachs, ao lado da britânica Emily Blunt e de Stanley Tucci como o indispensável braço direito de Priestly. Juntos, eles resgatam o tipo de cinema inteligente, centrado em personagens, com o qual muitos de nós crescemos — antes da era do streaming e da tecnologia sem conteúdo inteligente.

Como sequência do original O Diabo Veste Prada, o filme também reflete as mudanças sísmicas das últimas duas décadas: o declínio do jornalismo impresso, a ascensão dos smartphones e uma cultura cada vez mais moldada pela velocidade em detrimento da substância. A antiga imagem do repórter correndo atrás de uma notícia urgente deu lugar a uma geração que trabalha em casa diante de laptops, frequentemente distante do pulso da vida real.

Tendo participado da Rio Fashion Week aqui na cidade, pude vislumbrar em primeira mão o mundo insular e muitas vezes artificial que o filme captura com tanta precisão. Isso tornou sua atuação ainda mais impactante.

E assim encerro com uma esperança: que este papel lhe renda — a "ultrapassada e medíocre", segundo Rump — um quarto Oscar. Seria mais do que merecido, por uma atuação que não é apenas inesquecível, mas um testemunho do poder duradouro do cinema.

Com admiração,
Harold Emert

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