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“Fique bem longe da política” — O sábio conselho da minha falecida mãe

ENRead this article in English“Keep Far Away From Politics” — The Sage Advice of My Late Mother
Professor Raphael Chaves durante palestra sobre economia no Seminário sobre as Eleições Brasileiras

A visão de um observador veterano sobre a imprevisível eleição presidencial brasileira

Por Harold Emert

“Fique bem longe da política.”

Esse foi o sábio conselho da minha falecida mãe. E talvez ela tivesse razão.

Ainda assim, a política tem uma maneira curiosa de nos encontrar, queiramos ou não. Nos Estados Unidos, mais de 70 milhões de eleitores aptos a votar não compareceram às urnas na eleição presidencial de 2024 — um lembrete de que milhões de pessoas podem simplesmente decidir que política não lhes interessa, enquanto as consequências de uma eleição afetam a todos.

Na manhã de quinta-feira, 13 de agosto, encontrei-me sentado em um fascinante seminário sobre as eleições brasileiras na Fundação Getulio Vargas (FGV), em Botafogo, no Rio de Janeiro. Quatro especialistas apresentaram suas opiniões sobre o que poderá acontecer quando os brasileiros forem às urnas em outubro.

A conclusão do professor da FGV Jairo Nicolau foi particularmente marcante: segundo ele, os eleitores estão “não muito empolgados com os atuais candidatos”.

Talvez isso seja um eufemismo.

Uma eleição presidencial brasileira é, como as eleições em muitos países, impossível de prever com absoluta certeza. E ainda há muitas oportunidades para acontecimentos inesperados antes do primeiro turno, em 4 de outubro, e do segundo e definitivo turno, em 25 de outubro, caso seja necessário.

Minha própria conclusão depois de ouvir os especialistas foi simples: o Brasil é um país extraordinariamente difícil de governar e enfrenta problemas enormes. Mas existe outra preocupação, mais pessoal, para cada eleitor — o candidato de quem eu não gosto pode ganhar.

E quem quer que vença terá enorme influência sobre a vida dos mais de 213 milhões de habitantes do Brasil.

O “dinossauro” com seu jornal

Antes de o seminário começar, cheguei pontualmente — e descobri que aparentemente era o único dinossauro na sala.

Por quê?

Eu estava sentado lendo uma edição impressa de O Globo.

O jornal trazia uma reportagem sobre um candidato à Presidência cujo site de campanha supostamente apresentava qualificações de pós-graduação de instituições acadêmicas que ele nunca havia frequentado. Imediatamente me lembrei das extraordinárias controvérsias que cercaram a eleição de 2022.

Houve denúncias de eleitores sendo impedidos de chegar aos locais de votação, relatos de pessoas recebendo dinheiro para votar em determinado candidato e outras controvérsias envolvendo o processo eleitoral.

Também me lembrei de uma experiência pessoal em um comício político que frequentei, quando, de repente e de maneira bastante suspeita, as luzes se apagaram — junto com a eletricidade e o microfone.

Será que incidentes desse tipo podem acontecer novamente este ano?

Certamente espero que não.

A Justiça Eleitoral está mais forte hoje?

Silvana Batini, procuradora eleitoral regional do Rio de Janeiro e professora de Direito, apresentou uma perspectiva mais tranquilizadora.

Segundo ela, o sistema de Justiça Eleitoral brasileiro é hoje muito mais rápido e eficiente do que no passado.

Mas ela também fez uma observação que chamou minha atenção: embora a Justiça Eleitoral tenha sido institucionalmente separada do Supremo Tribunal Federal, ela acredita que, atualmente, tornou-se cada vez mais subordinada à Corte.

Para um brasileiro nascido no exterior que acompanha o drama político deste país há décadas, esse é um assunto que merece debate.

Os eleitores brasileiros têm memória curta?

Como observador veterano, não consigo deixar de lembrar do governo anterior e das extraordinárias controvérsias que o cercaram — incluindo sua condução da pandemia de Covid-19, a nomeação de pessoas consideradas inelegíveis ou inadequadas para cargos no governo e suas batalhas com aquilo que considerava o establishment cultural “de esquerda e elitista” do Brasil, além da quase destruição das universidades federais, que continuam gratuitas apesar dessas tentativas.

A pandemia, por si só, deixou um legado devastador, com o Brasil registrando cerca de 700 mil mortes.

Então, os eleitores brasileiros têm memória curta?

“Não sei”, foi a resposta que recebi de um dos especialistas.

Mas Marco Ruediger, diretor da Escola de Comunicação da FGV, apresentou uma observação interessante. Na sua opinião, os ataques do ex-presidente Donald Trump ao Brasil poderiam, na realidade, ajudar politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Independentemente do que acontecer em outubro, Ruediger acredita que a influência da direita política associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro continuará sendo um fator importante na política brasileira.

“É a economia, estúpido”

Outra lição do seminário foi uma que ecoa um antigo slogan político americano associado à campanha de Bill Clinton em 1992:

“É a economia, estúpido.”

O professor Raphael Chaves apontou o crescimento econômico decepcionante do Brasil e as altas taxas de juros como grandes desafios.

Sua avaliação foi direta: sob a atual administração, o Brasil está gastando mais do que arrecada.

Como observador, não pude resistir à tentação de pensar que esse dificilmente é um problema restrito ao governo federal.

O Brasil tem muitos exemplos de políticos e funcionários públicos desfrutando de salários generosos e benefícios adicionais — incluindo auxílio-moradia e outros pagamentos — enquanto os brasileiros comuns lutam para lidar com o custo de vida.

Tentando explicar o inexplicável

Depois de ouvir quatro especialistas discutirem eleições, democracia, economia e Justiça Eleitoral, deixei a Fundação Getulio Vargas talvez com mais perguntas do que respostas.

Mas essa provavelmente é a natureza da política brasileira.

Minha falecida mãe me aconselhou a ficar bem longe da política.

Depois de todos esses anos no Brasil, descobri que isso é consideravelmente mais fácil falar do que fazer.

Por isso, só posso agradecer à Fundação Getulio Vargas por organizar um seminário que tentou explicar o aparentemente inexplicável:

uma eleição presidencial brasileira.

Foto: Professor Raphael Chaves durante sua palestra sobre “É a economia, estúpido”, no Seminário sobre as Eleições Brasileiras.

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