Novos horizontes culturais chegam à Cidade Maravilhosa
ENRead this article in EnglishNew horizons in culture with a capital C arrive in one-time Cidade Maravilhosa (Marvelous City)
Por Harold Emert
Justamente quando este veterano da antiga Cidade Maravilhosa começava a se desesperar por estar no Brasil — cercado pelos escândalos de Brasília e diante do iminente retorno do Rock in Rio, aquela celebração anual do barulho que, para estes ouvidos envelhecidos, nem sempre é música — eis que surge uma notícia realmente boa.
O Rio de Janeiro está prestes a ter sua primeira Semana de Arte e Cultura.
E para aqueles de nós que vieram para o Brasil não apenas por suas praias, seu sol e sua extraordinária beleza natural, mas também por suas riquezas intelectuais e artísticas, isso é algo que merece ser celebrado.
Só podemos agradecer aos céus por a inteligência — e aquilo que ainda ousamos chamar de alta cultura — que atraiu tantos de nós para o Brasil não ter sido esquecida.
Muito pelo contrário: ela está ganhando um novo palco.
A iniciativa, que esperamos que se transforme em um evento anual, faz parte da ambiciosa tentativa da cidade de revitalizar o centro histórico do Rio, uma região que sofreu consideravelmente durante a pandemia de Covid-19 e suas consequências.
E quando falo em "alta cultura" brasileira, refiro-me à extraordinária tradição representada por compositores como Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim; pintores como Candido Portinari e Di Cavalcanti; arquitetos como Oscar Niemeyer; escritores como Clarice Lispector e Jorge Amado; o teatro de Nelson Rodrigues; e as notáveis gerações de bailarinos e dançarinos brasileiros que levaram a reputação artística do país para o mundo inteiro.
Agora, durante uma semana, boa parte dessa energia criativa estará reunida.
Mais de 1.000 horas de exposições, música, teatro, dança e eventos culturais ocuparão o Rio, com a maioria das atividades oferecida gratuitamente ao público.
A primeira Semana de Arte e Cultura do Rio, de 7 a 14 de setembro, levará exposições, concertos, teatro, dança, arquitetura, literatura e outros eventos artísticos a espaços espalhados pela cidade.
Organizada pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio em parceria com a ArtRio, a programação acontecerá simultaneamente à 16ª edição da ArtRio, uma das principais feiras de arte contemporânea do Brasil.
Para os visitantes, será uma oportunidade de descobrir um Rio muito diferente — bem distante das imagens de cartão-postal de Copacabana e Ipanema.
Em vez de simplesmente seguir o tradicional roteiro turístico, os visitantes poderão explorar os museus, galerias, edifícios históricos, praças e centros culturais da cidade e descobrir um Rio que muitos turistas jamais chegam a conhecer.
Mais de 1.000 horas de cultura
O centro histórico estará no coração das comemorações, com mais de 1.000 horas de programação cultural, envolvendo mais de 150 projetos e 74 festivais.
Os eventos ocuparão alguns dos locais mais históricos e atmosféricos do Rio, incluindo Lapa, Praça XV, Cinelândia, Gamboa e Praça Tiradentes.
E, algo importante tanto para visitantes quanto para moradores, a maior parte da programação será gratuita.
A iniciativa foi oficialmente anunciada em 3 de setembro no espetacularmente futurista Museu do Amanhã, onde os organizadores prometeram transformar o centro da cidade em uma enorme celebração a céu aberto da criatividade brasileira.
"É uma semana de arte que olha para aquilo que faz de nós o Rio de Janeiro e para aquilo que continuará fazendo de nós o Rio de Janeiro", afirmou Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura do Rio.
Ele também destacou o potencial internacional do projeto, dizendo que a iniciativa dará a curadores e colecionadores estrangeiros a oportunidade de conhecer artistas que trabalham no Rio.
Uma das características particularmente interessantes será a presença da Secretaria Municipal de Cultura dentro da própria ArtRio, com um estande exclusivo na feira.
O espaço apresentará uma exposição organizada em parceria com o Projeto Hélio Oiticica, ligado ao Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica.
A própria ArtRio oferecerá uma extensa programação de exposições, palestras, lançamentos de livros, apresentações artísticas e eventos especiais durante toda a feira.
Descobrindo um outro Rio
Para os visitantes que estiverem na ArtRio, haverá ainda outra maneira de conhecer a cidade.
Passeios culturais guiados e gratuitos sairão duas vezes por dia do local da feira, às 14h e às 16h, em vans com capacidade para 20 passageiros, acompanhados por guias culturais.
Os passeios levarão os visitantes a exposições e espaços culturais espalhados pelo Rio, oferecendo a oportunidade de conhecer alguns dos tesouros artísticos da cidade que facilmente passam despercebidos.
Também haverá sorteios de prêmios, incluindo ingressos para teatros municipais e livros.
Música, teatro e literatura
A música, naturalmente, terá um papel importante.
A popular cantora brasileira Fafá de Belém está programada para se apresentar na Lapa, enquanto Mart'nália estará no histórico Palácio Capanema.
No dia seguinte, o Projeto Aquarius reunirá o rapper Emicida, a lenda do samba Leci Brandão e a Orquestra Sinfônica Brasileira em uma apresentação que combinará rap, samba e música clássica.
É exatamente o tipo de mistura musical que o Brasil sabe fazer tão bem.
A literatura também terá lugar de destaque na programação, incluindo a FLUP — Festa Literária das Periferias, que celebra escritores e vozes literárias das comunidades do Rio.
Os amantes do teatro poderão assistir a "Senhora dos Afogados", uma das obras do grande e controverso dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues.
A montagem, no Galpão da Ação da Cidadania, conta com as atrizes Leona Cavalli e Giulia Gam.
ArtRio traz o mundo da arte internacional ao Rio
As comemorações coincidem com a 16ª edição da ArtRio, realizada na Marina da Glória.
Ao longo dos anos, a ArtRio se consolidou como um dos principais eventos de arte contemporânea do Brasil, atraindo galerias, artistas, colecionadores, curadores e amantes da arte do Brasil e do exterior.
Para os visitantes internacionais, a combinação da ArtRio com a programação cultural mais ampla da cidade oferece algo bastante incomum: a oportunidade de experimentar tanto o mundo comercial da arte contemporânea quanto a extensa rede de instituições culturais públicas do Rio.
E há mais.
O Museu do Amanhã ampliará seu horário de funcionamento durante o festival, permanecendo aberto até as 19h, uma hora além do horário habitual.
Também será criado um novo espaço público de convivência, com um café e atividades adicionais paralelamente à programação regular do museu.
"Teremos horário estendido e estaremos aqui até as 19h", afirmou Cristiano Vasconcelos, diretor-executivo do Museu do Amanhã. "Também teremos uma nova área pública, um espaço de convivência e um novo café com programação paralela."
Para aqueles de nós que vimos o Rio mudar ao longo das décadas — às vezes para melhor, outras vezes decididamente para pior — a chegada de uma semana dedicada à arte e à cultura é especialmente bem-vinda.
O Rio nunca teve falta de beleza.
O que às vezes lhe falta é a oportunidade de lembrar ao mundo que há muito mais na Cidade Maravilhosa do que praias, futebol e música alta.
Durante uma semana de setembro, pelo menos, a cidade nos lembrará de outra coisa:
O Rio ainda pode ser uma capital da cultura.



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